"É pela via do olhar..., proferiu Lacan (psicanalista francês, 1975), que o corpo ganha sua importância". O que está implicado nesse pensamento, entre outras coisas, é que o corpo pode ser sentido subjetivamente e o "olhar" exerce uma extraordinária função na constituição subjetiva e na estabilidade da relação do sujeito com a sua própria imagem e com o Outro, relação que se inicia nos primórdios da vida e que se repete infinitamente. A experiência clínica no tratamento do vitiligo nos mostra que tem sido de grande valia associar a terapia médica à psicanalítica, uma vez que os próprios pacientes referem-se a fatores emocionais e de estresse na base do desencadeamento da doença. Frases como: - "o vitiligo apareceu depois que meu pai morreu porque a tristeza foi muita" - "começou aqui em São Paulo, depois que a gente veio do nordeste" - "acho que é porque eu sou muito nervoso, doutora" o "sempre que fico muito ansiosa o vitiligo aumenta", são comuns no consultório. Não é raro ouvirmos que o vitiligo começou após algum episódio considerado, pelo próprio paciente, como sendo "traumático", normalmente ele se refere a um luto; uma separação repentina; um prejuízo financeiro importante; uma mudança de estado ou país, enfim, um episódio que tenha provocado na vida do sujeito um corte abrupto, uma ruptura profunda e que implicou numa mudança radical no seu jeito de viver. Há ainda nessa análise algo que se constitui quase como um paradoxo e que deve ser considerado. O vitiligo, conforme lembra o Dr. Celso Lopes, é uma doença que não provoca dor nem coceira, ardume ou qualquer outro sintoma que possa causar sofrimento físico, no entanto, acarreta para a maioria dos pacientes um enorme sofrimento psíquico, que endereça para a clínica, muitas vezes, pessoas infelizes e com dificuldade para lidar com os relacionamentos afetivos e sociais. Por ser uma doença que se caracteriza pelo aparecimento súbito e progressivo de manchas acrômicas (brancas, sem pigmentação) que contrastam com a cor natural da pele, é fácil entender a importância que o olhar ganha nessa relação. Sendo a pele o órgão mais extenso do corpo humano e absolutamente visível, grande parte dos olhares se converge para ela, potencializando a responsabilidade, que lhe é atribuída em alguns momentos de intermediar a relação entre um e outro, e de exercer a função de representante da identidade e da auto-imagem. A proposta da psicanálise na instituição é oferecer ao paciente um lugar de escuta do seu discurso e da sua história de vida (de onde emergem os sintomas), a partir da relação "analista-analisante". É uma tentativa de verificar as eventuais relações das lesões dermatológicas com o sintoma psíquico, e discriminar o impacto dessas nas inibições e manifestações de sofrimento frente às diferentes posições subjetivas que se pode assumir no laço social. Autora: Heloísa Ramirez Psicanalista Coordenadora da Rede Clínica de Psicossomática - FCL-SP Coordenadora Projeto “Aspectos Psicológicos dos Pacientes com Vitiligo e Psoríase” - Instituto da Pele – Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) |